A Farsa da Revolução Tecnológica - por Danielle Takase - 2ºE

A Farsa da Revolução Tecnológica - por Danielle Takase - 2ºE

Uma família reunida tomava o tão simbólico café da manhã. O pai, de um canto da mesa:
– Querida, pode me passar a manteiga?
A esposa passava a manteiga. Haviam algumas xícaras de café fresco, algumas canecas de leite quente, chocopowder, pão francês, manteiga, dois filhos e um a caminho. O jornal repousava sereno no colo do pai, aguardando-o pacientemente até ingerir a última gota de café, ao som de um bolero que sai do rádio graciosamente posicionado embaixo da janela que revela um bonito sol. O filho se retira da mesa e logo já está rolando no tapete da sala imitando seu herói favorito, enquanto no tubo de elétrons o herói destrói seus inimigos – muito inspirador, bela lição de moral, "quem faz o mal...". Toda essa cena é muito inspiradora. Parece mais uma cena de mil novecentos e alguma coisa. Que tal um cenário mais contemporâneo?
A mãe enquanto programa o microondas para esquentar o leite, se debruça no balcão para não perder nenhuma fofoca matinal, a TV localizada na cozinha com este propósito. E que bom que o microondas, depois de programado, pára automaticamente. Afinal, pobre fogão, quanto sofreu com os esquecimentos da mulher – esquecimentos não, fome de saber da vida alheia, diga-se de passagem – o leite subia, aquela espuma fervorosa e nada mais que o fogão poderia fazer, just cry over the spilled milk.
O marido? Ex-marido, – que fique claro que a autora não acha que nos tempos modernos as mulheres não tenham maridos; essa não têm; muitas não tem, mas não vem ao caso. – aparece de quando em quando para ver os filhos. Filhos – a adolescente mal-amada e mimada (quanta contradição) e o pirralho birrento e hiperativo – e mais uma vez nada de generalizações, esses cenários acontecem.
Enquanto o microondas informa que o leite está quente, a bomba de hormônios acorda frustrada – com a vida? com o barulho? com a mãe? consigo? – e caminha quase zumbi para a cozinha, pega o leite e se tranca novamente em sua caverna onde hibernará até que um ruído a desperte de seu sono de beleza. O menino já acordado – aliás nem sequer dormiu. O videogame é testemunha de todas as 7 horas que ficou ligado. Apenas 7 horas porque quando o relógio marcava 3:00 am o computador estava sendo desligado, e antes dele, às 00h quem permanecia ligada era a tevê.
O jornal sim, este vivia inconsolável, pobrezito. Ele era gratuito, atirado no jardim, requer apenas olhos atenciosos que o fitem. Mas nem as headlines. Mui raramente a adolescente com muita brutalidade e insensibilidade resolvia olhar seu horóscopo, de Áries – difícil.
Quando a casa tinha um cachorro, ele ainda se importava com os jornais. Pelo menos eles tinham alguma função – não que um vira-lata defecando sobre você seja muito agradável, mas já era consolo. O cachorro é apenas mais uma vítima de tanta alienação, distração, ah, como sofreu. Morreu de solidão, acreditem. Talvez o jornal fosse sua única companhia, era uma solidão mútua. Se o bichento tivesse morrido há cinco anos atrás os pirralhinhos talvez tivessem se importado. Talvez tanto ao extremo de querer morrer juntamente com ele. Bob, bobão. Nem enterro digno teve. Nem vale a pena contar o fim que teve. "Morreu de solidão" é um bom diagnóstico para um atestado de óbito.
Enfim, uma cena muito inspiradora.


Contacto

humanidades.net.br