1ª Série do Ensino Médio
O que vamos estudar em Sociologia
A Sociologia fez parte dos currículos escolares, de maneira alternada, até o golpe militar de 1964. Por ser uma ciência que se caracteriza pela análise e reflexão desde seu nascimento no século XIX, o governo militar retirou a disciplina dos currículos, junto com a Filosofia. Em 1979, quando ocorreu o processo de abertura política no Brasil, as discussões sobre o papel da educação escolar trouxeram à tona a importância da Sociologia para dar conta da formação do novo cidadão e da nova cidadã que a sociedade necessitava. Somente em 2 de junho de 2008, após anos de discussões intermináveis é que foi sancionada a lei nº 11.684 que instituiu as disciplinas de Sociologia e Filosofia como componentes do currículo oficial das escolas de Ensino Médio, nas três séries, em todo território nacional.
E o que vamos estudar? Desde a Antiguidade existia a preocupação em entender como a sociedade funcionava. Entender como os seres humanos se relacionavam e o que determinava estes relacionamentos era um desafio importante para a época. Até o século XIX quem estudava a sociedade eram principalmente os filósofos. Foi quando Henri de Saint Simon, e depois dele Auguste Comte, se dedicaram a estudar a sociedade como ciência própria, chamada por eles de Física Social. Só mais tarde, ainda no século XIX, Auguste Comte chamou esta ciência de Sociologia.
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Para que estudar a sociedade?
A sociedade é uma complexa teia de relações que se estabelecem entre os seres humanos. São relações de ordem política, econômica, cultural, afetiva, educacional, religiosa, de trabalho, dentre tantas outras.
Em cada momento histórico os seres humanos inventam e reinventam fios que irão sendo tecidos de acordo com suas necessidades, tanto materiais quanto subjetivas, isto é, seus valores e crenças, transformando as coisas do mundo.
Este ambiente onde os seres humanos constroem suas teias de relações sociais – a sociedade – é de fato o lugar no qual são ensinados e aprendidos os valores necessários à vida em sociedade. A este processo intenso e permanente chamamos Processo de Socialização. Os valores, crenças, os hábitos e os costumes são transmitidos por pais e mães e por toda a comunidade onde vivemos. Tudo isso irá construir idéias e valores que temos sobre o mundo.
Mas, para compreender de forma coerente o desenvolvimento dos processos de socialização precisamos discutir a origem dos mesmos e esta origem esta no desenvolvimento das formas do trabalho. Vamos então, agora, voltarmos nossa atenção para esse tema fundamental da Sociologia. Para Karl Marx e Friedrich Engels, o trabalho foi resultado da ação livre do homem transformando a natureza a seu favor, para garantir-lhe a sobrevivência. Ou seja, foi a dominação de parte dos instintos animais que nossos ancestrais possuíam que permitiu o surgimento da consciência, da memória e do desenvolvimento da nossa razão. Mas outros animais também não transformam a natureza? Segundo Marx, não. A respeito da essência do trabalho que já se tornou adequado, diz Marx:
“Nós pressupomos o trabalho numa forma exclusivamente humana. A aranha realiza operações que se parecem com as do tecelão, a abelha faz corar de vergonha muitos arquitetos ao construir as suas células de cera. Mas o que distingue, essencialmente, o pior arquiteto da melhor abelha é que ele construiu a célula na sua cabeça antes de fazê-la em cera. No fim do processo de trabalho aparece um resultado que já estava presente desde o início na mente do trabalhador que, deste modo, já existia idealmente. Ele não efetua apenas uma mudança de forma no elemento natural; ele imprime no elemento natural, ao mesmo tempo, seu próprio fim, claramente conhecido, o qual constitui a lei determinante do seu modo de agir e ao qual tem de subordinar a sua vontade”.[1]
Mas foi mérito de Engels ter colocado o trabalho no centro da humanização do homem. Ele investiga as premissas biológicas do novo papel que o trabalho adquire com o salto do animal ao homem e as encontra na função diferente que a mão já exerce na vida do macaco:
“Ela é usada principalmente para pegar o alimento e segurá-lo com firmeza; o que já acontece com os mamíferos inferiores através das patas dianteiras. Com as mãos, muitos macacos constroem ninhos em cima das árvores ou até, como o chimpanzé, coberturas entre os ramos para proteger-se dos temporais. Com as mãos eles pegam paus para defender-se dos seus inimigos ou pedras e frutas para bombardeá-los”.
Engels observa, no entanto, com a mesma precisão que, apesar destes fenômenos preparatórios, aqui se dá um salto, por meio do qual já não nos encontramos dentro da esfera da vida orgânica, mas acontece uma superação dela de princípio, qualitativa. Neste sentido, comparando a mão do macaco com aquela do homem, diz:
“O número das articulações e dos músculos, sua disposição geral são os mesmos nos dois casos; mas a mão do selvagem mais atrasado pode realizar centenas de operações que nenhum macaco pode imitar. Nenhuma mão de macaco jamais produziu a mais rústica faca de pedra”.
Engels chama atenção para a extrema lentidão do processo através do qual se dá esta passagem que, porém, não lhe retira o caráter de salto. A essência do salto é constituída por esta ruptura com a continuidade normal do desenvolvimento e não pelo nascimento, de forma imediata ou gradual, no tempo, da nova forma de ser. Logo falaremos a respeito da questão central deste salto a propósito do trabalho. Queremos apenas lembrar que aqui Engels, com razão, faz derivar imediatamente do trabalho a sociabilidade e a linguagem. Estes são temas que, de acordo com o nosso programa, só trataremos mais adiante. Apontaremos aqui apenas um momento, ou seja, o fato de que as assim chamadas sociedades animais (e também, de modo geral, a “divisão do trabalho” no reino animal) são diferenciações fixadas biologicamente, como se pode ver com toda a clareza no “Estado das abelhas”. Isso mostra que, qualquer que seja a origem dessa organização, ela não tem em si e por si nenhuma possibilidade de um desenvolvimento ulterior; nada mais é que um modo particular de uma espécie animal de adaptar-se ao próprio ambiente. E tanto menores são estas possibilidades quanto mais perfeito é o funcionamento de uma tal “divisão do trabalho”, quanto mais sólido é o seu fundamento biológico. Ao contrário, a divisão gerada pelo trabalho na sociedade humana cria, como veremos, as suas próprias condições de reprodução, cada vez mais ampla e complexa. Sem dúvida isto não impede que, no decorrer da História possam aparecer becos sem saída; suas causas, porém, sempre serão determinadas pela estrutura da respectiva sociedade e não pela constituição biológica dos seus membros.
Vamos, então, estudar a sociedade levando em conta que ela é fruto do trabalho humano, das necessidades dos homens em momentos históricos específicos e não da evolução da espécie.
O trabalho e o desenvolvimento da cultura
Como vimos, o ser humano, ao contrário dos animais, não vive de acordo com seus instintos, isto é, regido por leis biológicas, invariáveis para toda a espécie, mas a partir da sua capacidade de pensar a realidade que o circunda e de construir significados para a natureza, que vão além daqueles percebidos imediatamente. A essa construção simbólica, que vai guiar toda ação humana, dá-se o nome de cultura.
A cultura, nesse sentido amplo, engloba a língua que falamos; as idéias de um grupo; as crenças; os costumes; os códigos; as instituições; as ferramentas; a arte; a religião; a ciência; enfim, todas as esferas da atividade humana. Mesmo as atividades básicas de qualquer espécie, como a reprodução e a alimentação, são realizadas de acordo com regras, usos e costumes de cada cultura particular. Os rituais de namoro e casamento, os usos referentes à alimentação (o que se come, como se come), o preparo dos alimentos, o tipo de roupa que vestimos, a língua que falamos, as palavras de nosso vocabulário, tudo isso é regulado pela cultura à qual pertencemos. A função da cultura é tornar a vida segura e contínua para a sociedade humana. Ela é o "cimento" que dá unidade a um determinado grupo de pessoas que divide os mesmos usos e costumes, os mesmos valores. Deste ponto de vista, portanto, podemos dizer que tudo o que faz parte do mundo humano é cultura.
